

Novos desafios
Constantemente somos desafiados a novas empreitadas. E ainda bem, porque elas nos estimulam para a vida e são bálsamo rejuvenescedor. Não tenho fugido das que me batem à porta, mas, depois de um bom pensar, resolvi lançar desafios aos mais jovens que se dedicam à pesquisa histórica e biográfica, esperando que sejam enfrentados por vários estudiosos porque as razões da convocação se me parecem justas, relevantes e necessárias.
Bem sei que há inúmeros temas e personalidades que merecem igual atenção para pesquisas e trabalhos acadêmicos, reportagens especiais, estudos biográficos e apreciação de crítica literária. Pesquisas dessa natureza costumam passar ao largo quando se trata de um intelectual que, ao mesmo tempo em que deixou contribuição literária também atuou no campo da política partidária, o que se dá talvez por preconceito ou intenção predeterminada de evitar a contaminação desses caminhos e receio de apreciar a trajetória política e como o intelectual se portou na vida pública em relação ao pensamento que expunha na academia, discursos, conferências ou no magistério.
Como primeiros desafios, apresento dois temas de pesquisa: “Vida e Obra de Arthur Cézar Ferreira Reis”, sem dúvida escritor de grande relevância, professor, jornalista, político que na juventude integrou o Partido Socialista Amazonense e que foi governador do Amazonas no período militar de 1964 a 1967; “Vida e Obra de Plinio Ramos Coelho”, professor, advogado, poeta, jornalista, orador, político em vários mandatos de parlamento estadual e federal e governador do Estado, o primeiro a exercer dois mandatos governamentais, antes mesmo do instituto da reeleição.
Escolhidos bem a propósito por algumas similaridades, especialmente por seus governos verdadeiramente transformadores da realidade socioeconômica do Estado, e pelo confronto que, no campo político, acabaram estabelecendo em curto mais tenso período.
Arthur Reis foi mais intelectual do que político, porém, chamado ao mandato em momento excepcional da vida nacional, não se furtou ao exercício do cargo majoritário e deixou marcas sensíveis na educação, saúde pública, organização administrativa do Estado e cultura, posições que reclamam avaliação isenta e despida de preconceitos ideológicos. Exerceu o governo sem interromper a produção de novos livros e conferências e a audaciosa defesa da integridade da nossa Amazônia como brasileira. A quem a Academia de Letras elegeu por duas vezes até que tomasse posse. Plinio Coelho, que rompeu com as estruturas político-partidárias advindas da Primeira República e da fase getulista, impondo-se como líder de massa, trabalhista, sindical, audacioso para o seu tempo e de práticas transformadoras, principalmente em seu mandato inaugural. Ao primeiro olhar foi mais político, mas seus artigos de jornal, discursos, mensagens de governo que ele mesmo fazia questão de manuscrever impõem a presença de um intelectual desenvolvimentista que o Amazonas reclamava na ocasião. A quem a Academia de Letras esperou por mais de vinte anos para empossá-lo, contrariando o estatuto em homenagem a sua trajetória singular.
Para ambos os casos, fico à disposição dos interessados para contribuir na elaboração do roteiro dos trabalhos, indicação de fontes, fornecimento de obras e documentos que possa dispor em meus modestos acervos, indicar pessoas para entrevistas e considerações sobre a personalidade de cada um desses importantes intelectuais.
Voltarei com outras provocações que, a meu sentir, são igualmente relevantes e necessárias para descobrir-se o véu que paira sobre a vida e a obra de muitas personalidades de alto relevo amazônico e sobre as quais não se justifica o silêncio.


Novo Código Eleitoral
Todas às vezes que ouço falar em mudanças nas leis eleitorais, notadamente no Código Eleitoral Brasileiro, e consigo investigar um pouco do que se trata, fico a pensar se tais providências resultam mesmo de novas convicções sociais e políticas, de mudanças reais de cenários ou representam o cumprimento ao interesse circunstancial de ajustar as próximas eleições às necessidades de alguns legisladores. As ditas “leis alfaiate”, aquelas cujas regras parecem ter sido feitas a propósito para caber em tal ou qual indivíduo ou grupo de indivíduos e partidos. Afinal, essa lenga-lenga não é nova e vem desde que o Brasil era imperial.
Dias desses foi a propositura de aumento das vagas para eleição de deputado federal visando cumprir decisão judicial de ajuste da representação parlamentar conforme a população dos estados-membros da federação, encrenca ainda resolvida por inteiro, apesar do veto presidencial recentemente publicado no Diário Oficial da União.
Há tempos, desde 2021, está tramitando no Congresso Nacional projeto de lei mais amplo, que apresenta um novo Código Eleitoral para o país, com justificativas daquelas que são sempre triviais e urdidas a qualquer modo. Dizem que se destina a estabelecer “novas normas para o sistema eleitoral brasileiro, abrangendo desde os princípios fundamentais do direito eleitoral até a organização e funcionamento dos partidos políticos. A proposta também aborda a administração das eleições, a prestação de contas dos partidos e a participação política das mulheres”.
A autora, deputada federal, justifica a medida visando conferir “maior clareza e organização nas regras eleitorais, o que pode facilitar o entendimento e a aplicação das normas; a promoção da igualdade de oportunidades entre candidaturas e incentivo à participação política das mulheres; a melhoria na transparência e na prestação de contas dos partidos políticos, o que pode aumentar a confiança pública no sistema eleitoral; garantia de imparcialidade e segurança nos processos eleitorais, assegurando que a vontade popular seja respeitada”.
A ser verdade, estaríamos com a construção de uma lei especial com linguagem e processos simplificados, equilíbrio e proporcionalidade verdadeiros na participação de homens e mulheres, com previsão de procedimentos administrativos, contábeis e de auditoria na prestação de contas mais transparentes e respeito à vontade popular expressa pelo voto. O que importa saber é se este alinhavado de ideias e propostas virá ao debate com a população, de forma ampla, aberta, intensa e clara, de modo a permitir que os eleitores – em sua maioria, pelo menos ou por meio de apartidários e estudiosos do tema – possamos contribuir, examinar as entrelinhas, descobrir os escaninhos e, se for o caso, darmos o nosso aval, pelo menos aos princípios que devem reger uma lei dessa magnitude.
Nesse ponto, como velho estudante da matéria, me ocorre relembrar aos leitores que em 1932, com nosso primeiro Código, foi amplamente anunciado o direito de voto às mulheres como previsto em artigo da lei medida que se transformou em bandeira política do seu autor, mas, em verdade, na prática, não foi direito conferido a todas elas, pois nem todas tiveram a oportunidade de exercitar o direito e cumprir o dever do voto, como sabemos.
Por isso, e por muitas outras “façanhas” que estamos acostumados a observar em projetos de leis eleitorais que não são amplamente debatidos, é que ficamos “de orelha em pé”, como diziam os antigos, diante da tramitação mais ou menos silenciosa de um novo código para as eleições brasileiras, naturalmente vestido de partidarismos.


Talento valioso
Não faz muito, dentre os vários artistas de valor que despontaram na arte cinematográfica em Manaus, em geração mais recente ao tempo ou pós “Amazonas Film Festival”, um, desde logo se destacou e, seguidamente, foi ampliando horizontes e realizando sonhos, seja quando assessor da Secretaria de Estado de Cultura dando-me o prazer de sua convivência diária, inteligente e sagaz, seja adiante quando ganhou asas e partiu para voos solo mundo afora.
Inquieto, competente, apaixonado pelo cinema, desenho, fotografia e música, foi dele a ideia dos salões de Humor que realizamos e ampliaram interesses e vocações de aficionados por essa arte muito particular da qual o País conhece verdadeiros gênios.
Nos últimos anos, são dele os mais importantes filmes em longa-metragem de criação amazonense, os quais estiveram em grandes festivas como os de Berlim e Brasília, além de ter criado e dirigido curtas e documentários muito bem recebidos pelo público e pela crítica especializada.
Resultado de seu trabalho, foram muito aplaudidos: “A Floresta de Jonathas”, “Antes o tempo não acabava” e “A terra negra dos Kawá”, sempre com sua marca de diretor, roteirista, produtor e até mesmo compositor como sucedeu no caso de “Kawá”, atuando com habilidade, esmero e entusiasmo de quem descobre o quanto de belo pode ser exposto nas telonas e telinhas na contação de histórias bem desenhadas e que emocionem o público, reunindo equipes bem escolhidas e igualmente apaixonadas.
Novo sucesso vai chegar às telas brasileiras com jeito e cara amazonense, desta feita com o filme “Iluminação”, neste 2025, aproveitando os referenciais e locações dos municípios de Presidente Figueredo, Iranduba e da região redescoberta de Paricatuba com suas ruínas que traduzem dor e sofrimento, prisão e angústias que não acabaram com o tempo, pois estão encrustadas nas colunas e paredes de pedra que permanecem como testemunho desse passado triste e não tão distante.
Fiel aos amigos e com amigos fiéis na mesma arte de bem criar o belo, Sérgio Andrade preparou tudo e, com Zeudi Souza e Flávia Abtibol à frente do set com mais de 50 outros profissionais que sabem muito bem como construir um trabalho de alto nível, vai realizar novo sucesso. Agora, essa equipe faz ressurgir o cenário de 1908, pois a trama se passa em pleno período de ouro da economia da borracha, dos esbanjamentos dos senhores dos seringais e depauperação de seringueiros nordestinos levados quase sempre ao tronco como escravos para a extração do látex nos rios distantes da capital que se alimentava de libras esterlinas.
No passado mais distante rendemos homenagens a Silvino Santos, depois a Djalma Limongi Batista, Márcio Souza, Roberto Kahane, Antônio Calmon, Aurélio Michiles, Luiz Maximino de Miranda Corrêa e muitos outros, como símbolos de uma geração dedicada ao cinema, e, na atualidade, entre tantos valores Sérgio Andrade se destaca sem constituir demérito a nenhum outro, mas carregando consigo a luz própria de seu talento valioso.


Um clássico da Amazônia
Desde há muito, quando comecei a reunir livros visando conhecer um pouco sobre a região amazônica, lá pelos meus 12 anos, verifiquei que havia necessidade de escolher algumas obras e autores que, pela alta qualidade, deveriam me acompanhar em leituras e releituras sobre determinados aspectos, mesmo polêmicos, muitos dos quais também exigem que apreciemos variáveis geográficas, políticas, econômicas e sociais para melhor entendimento dos acontecimentos a que se reportam.
Um dos livros com essa característica que trata de um caso específico de relações entre estados brasileiros é de autoria de um escritor de boas letras, sempre considerado nas rodas nacionais o qual foi dado a público em 1899, mas, mesmo com informações sérias e bem-sustentadas em documentos, foi muitas vezes rebatido em seus argumentos sem ser inteiramente superado em suas razões: José Veríssimo e o seu “Pará e Amazonas – questão de limites”.
Obra publicada pela Companhia Tipográfica do Brasil, do Rio de Janeiro, ainda quando na Rua dos Inválidos, sem maiores esmeros gráficos, disseca o problema que afligiu nosso Estado por muitos anos, desde a alteração de limites que o governo provincial paraense nos impôs em 1833 ao procurar regulamentar o Código Criminal do Império e avançou sobre terras rio-negrenses, definidas como tal em 1755 quando da criação da Capitania de São José do Rio Negro, ao tempo do marquês de Pombal.
Paraense de nascimento, estudou em Manaus, Belém e Rio de Janeiro. Foi jornalista e professor e conseguiu alguma projeção nos meios literários e de conferencistas no exterior. Entretanto, foi como estudioso da literatura brasileira que se firmou na antiga capital da República, onde também teve prestígio no magistério e na imprensa, com relações sociais importantes o que culminou com a criação da Revista Brasileira e da Academia Brasileira, graças às relações que manteve com Lúcio de Mendonça, Machado de Assis e Visconde de Taunay.
Adepto do Naturalismo, cultivou a crítica literária com considerável profundidade para a época, e não teve receio em se afastar da Academia quando entendeu que uma das escolhas para a composição do plenário, tal como se fizera, não correspondia a um homem de letras e literato.
Na obra em que trata do direito do Pará às terras de que falei, foi contestado com veemência por membros do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas como Agnello Bittencourt, Miranda Simões e notadamente por Furtado Belém, este que se dedicou em alentado estudo de que tratei recentemente neste canto de página.
Quando trata das cenas amazônicas em outro título de sua lavra, ou da história da literatura, da educação nacional, do Colégio Americano e em artigos lançados em sua Revista Brasileira, não lhe faltam atenção com o idioma, sensatez nos argumentos, clareza na exposição, linguagem escorreita, mas, no caso vertente sobre os limites do Pará e Amazonas, se deixa levar pela paixão, ainda que não perca a qualidade de bem escrever.
Recentemente revisitei algumas das obras de Veríssimo motivado pela solenidade na qual o Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, sob a lúcida presidência de José dos Santos Pereira Braga, deu posse ao novo titular desta Cadeira, o professor doutor Júlio César Brandão que, em bela peça de apreciação da vida e obra do patrono, em síntese valiosa, discorreu com maestria sobre Veríssimo no cenário amazônico em par com a recepção que lhe fez a sempre ilustrada Marilene Corrêa da Silva Freitas.
Por tudo que produziu, Jose Veríssimo merece o título de “clássico da Amazônia”.


A memória que se esvai
É compreensível que a memória social, política, artística, cultural, familiar se esvaia aos pedaços a cada ser humano que encerra o ciclo de passagem nesse campo de experimentações, até porque não é possível registrar idealmente os acontecimentos que marcaram a cada um, nem mesmo os que tenham tido oportunidades mais favoráveis e exercido funções de influência na vida da coletividade. Essa memória se esvai, restando fragmentos de artistas, cientistas, professores, políticos que gravam depoimentos sobre episódios que testemunharam. Ainda assim, restará uma só versão dos acontecimentos e o historiador vai se debruçar para entender e reconstituir o cenário da época, sob a sua ótica e a de doutrinadores.
Não é compreensível – e este é o ponto central desse artigo – que essa memória se esvaia com a perda de bens edificados e que são patrimônios da história da cidade e, sobretudo, representam as tradições acadêmicas, a formação de gerações. E que isso se faça por responsabilidade de quem deveria ensinar a preservá-las e esquece sua trajetória: a Universidade.
O que me incomoda, e julgo que tenha alguma autoridade para falar do assunto, e por isso venho a público declarar inconformismo e esperar que se reverta, é que os governos e a sociedade deixem de ostentar um dos símbolos da primeira Universidade do Brasil assim tomada conforme o conceito dos primeiros anos de 1900 e consintam com o abandono do prédio da Faculdade de Direito do Amazonas, na Praça do Torquato Tapajós, ao qual a galhofa de alguns resolveu timbrar de “jaqueira”, mas que abrigou a formação profissional de centenas de homens e mulheres que honram as letras jurídicas.
Explico: em razão de decreto presidencial n. 11.929, de 26 de fevereiro de 2024, dito para democratização de imóveis do patrimônio da União, a Universidade Federal do Amazonas foi levada a escolher quais prédios antigos iriam permanecer sob seu poder e uso. Nesse caso, tem-se notícia por fonte fidedigna de que a UFAM teria “desistido” do prédio da Faculdade de Direito, o qual, por essa razão, está sujeito à demolição, ao uso de menor valia por entidade nem sempre qualificada, ou a se tornar moradia popular, que são os objetivos do decreto.
Essa mesma Universidade já deixou escapar de suas mãos e se encontram em estado de abandono outros dois prédios que também são símbolo de sua história: as escolas “Saldanha Marinho” e “Nilo Peçanha”, nos quais os idealistas da Universidade Livre de Manáos depositaram energias e esperanças de edificarem uma sociedade igualitária, promotora do desenvolvimento social e econômica.
Até onde iremos com esse tratamento desalentador para a nossa geração e criminoso com as futuras gerações que não terão o direito de conhecer um exemplar sequer da memória urbana do que tanto se fala como período áureo da cidade. Um só dos prédios que foram alicerce da antiga Universidade de Manáos.
Não basta que daqui a tempos sobrem nichos de florestas, águas nos rios e igarapés, alguns animais silvestres que são do que mais se diz cuidar nos últimos anos em defesa do direito das futuras gerações a um meio ambiente harmônico e equilibrado. É preciso que haja vida humana e memórias de suas passagens, mas, do jeito que vamos, nem os arqueólogos com avançados robôs lunáticos serão capazes de encontrar vestígios da Manaus que tivemos.


Amazonas liberto
Amazonas liberto, foi a expressão mais comum que correu nas rodas de conversa na cidade de Manaus naqueles dias que se seguiram ao 10 de julho de 1884, quando as chamadas forças vivas da sociedade e o presidente Theodureto Carlos de Faria Souto proclamaram a abolição da escravatura de africanos no território amazonense. A solenidade foi pomposa, com os rigores do cerimonial da época que incluiu bandas musicais, desfiles cívicos pelas ruas, discursos, cânticos, suspensão dos trabalhos legislativos, baile reservado a poucos convidados levado a efetivo no paço do palácio do governo, sessão festiva e branca nas lojas maçônicas que se empenharam decisivamente nesse objetivo, iluminação pública ampliada, entrega de diplomas de benemerência e honrarias aos próceres do movimento libertário.
Foi um ato político, porque a desescravização no território amazonense, seja pela pouca quantidade de escravos, seja pela aplicação de serviços a que se prestavam, como em razão da avançada idade de grande parte deles e falta de mercado para comercialização interna como sucedia em outras províncias, vinha sendo conseguida, passo a passo, desde alguns anos antes, com a criação do fundo provincial de emancipação, as emendas orçamentárias de liberdade individual, a compra de alforrias, libertações por dita generosidade de poucas famílias. Ao lado disso, havia o trabalho de clubes e associações de vários segmentos sociais em quermesses, rifas e recebimento de doações para compra de liberdades.
Ao mesmo tempo, os cofres provinciais arcaram com inúmeros pagamentos de cartas de alforria, viagens de comissões libertárias para municípios do interior, reuniões de congraçamento e das solenidades de promulgação e festejos oficiais em 24 de maio e em 10 de julho. Outro preço pago pelos amazonenses decorreu da substituição do presidente Theodureto Souto com a qual se deixou de ter um governo dedicado ao desenvolvimento local conforme os padrões da época, custo político dos atos de libertação.
Por alguns anos foi bastante comum a realização de eventos comemorativos desses feitos considerados históricos, quando parte da cidade antiga ficava embandeirada, celebravam-se missas solenes, havia discursos inflamados na Assembleia Legislativa provincial, os jornais abriam espaço para alentados artigos sobre o tema e seus destacados atores. Depois, o silêncio, como se tudo que foi tratado como virtude naquela ocasião, tivesse sido transformado em pecado inominável. Mais tarde ainda, aproximando-se do nosso tempo, recobraram-se bons augúrios pelos feitos libertadores, desconhecendo-se o lado negocial que, sem dúvida, também esteve presente quando do empenho para abolição da escravatura de africanos, bem antes que essa medida fosse adotada pelo governo do império para todo o território do país.
De nossa parte, bom recordar que, em 1984, quando do centenário desses feitos, na presidência do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, fizemos organizar seminário com debates de alto nível sobre o assunto o qual incluiu Gilberto Freyre, Arthur Reis, Mário Ypiranga Monteiro e Vicente Salles, conferimos homenagens a personalidades que se destacavam no movimento negro e na demonstração dos valores da cultura e das sabedorias de afrodescendentes, em uma semana que teve grande repercussão social, política e notadamente cultural.
O que se verifica na atualidade, e parece cristalino dizer-se, é que, de um lado vem crescendo a imposição e de outro a aceitação mais ampla de que o Brasil é um país multicultural e multirracial e como tal deve se expressar em todos os cenários da vida nacional, e que as posições ocupáveis pelos seres humanos devem estar acessíveis, indistintamente, por méritos, sem qualquer diferença ou constrangimento, o que significa palmilhar o caminho da desejada igualdade de direitos.


Casuísmo eleitoral
Estamos às vésperas de mais uma alteração na legislação que tem implicações para as eleições do próximo ano, precisamente aquela que poderá ampliar o número de vagas para a composição da Câmara Federal e, por via de consequência, para a formação das assembleias legislativas que representam a estrutura parlamentar dos estados-membros da federação.
Esse procedimento tem sido comum, mesmo depois da Lei Eleitoral n. 9.504, que tinha a pretensão de consolidar uma forma, mecanismos e regras que fossem observadas por muitos anos, sem o risco de alterações breves e casuísticas. Não resistiu muito tempo e, pior que isso, a cada vez que se aproxima o período eleitoral, surgem novas disposições em debate no Congresso Nacional, algumas das quais visando acomodar situações de fato ou interesses circunstanciais, sem observância do melhor Direito.
Dessa vez, essa mudança diz respeito ao número de vagas que deve ser posto à disposição dos partidos políticos para inscrição de candidaturas visando a composição da Câmara e da Assembleia do Estado, fugindo ao que era esperado e justo que seria a redistribuição das vagas atuais de deputados federais entre os Estados, em razão do contingente populacional de cada um, como previsto constitucionalmente. Redistribuição era o que se esperava, para assegurar que o critério escolhido pelo constituinte fosse bem-observado: o da representatividade popular.
Diverso disso, os atuais legisladores da nação organizaram uma forma alternativa de atendimento aos interesses do momento para não alterar as vagas atualmente conferidas às representações estaduais e atender ao aumento populacional de alguns estados. Ou seja, nenhum estado reduzirá a bancada atual, embora tenha tido redução de população, e os que têm direito à ampliação serão contemplados com o aumento geral de vagas em disputa.
Ao primeiro olhar parece não haver impedimento legal para que essa providência seja adotada, até porque está no prazo da lei, é indiscutível a competência legal do Congresso em tais matérias e há uma decisão do Supremo Tribunal Federal para que a providência seja adotada.
Observando com mais rigor o assunto, adentrando ao princípio que deve reger essa questão, pode-se verificar que a composição do Congresso em Câmara Alta (Senado) e Câmara Baixa (Câmara Federal), tem o propósito de exprimir que o senado é a representação igualitária dos estados da federação brasileira, enquanto a Câmara espelha a proporcionalidade da população dos estados-membros, ou seja, a esta é concedida a “composição proporcional”, definida em “eleições proporcionais”, para vagas decorrentes do número de habitantes em seu território.
A Constituição Federal assinala no art. 45 – “A Câmara dos Deputados compõe-se de representantes do povo, eleitos, pelo sistema proporcional…”, e no § 1.º, define que “o número total de Deputados, bem como a representação por Estado e pelo Distrito Federal, será estabelecido por lei complementar, “proporcionalmente à população”, procedendo-se aos ajustes necessários, no ano anterior às eleições, para que nenhuma daquelas unidades da Federação tenha menos de oito ou mais de setenta Deputados”.
Naturalmente, a Constituição determina a realização de ajustes, quando necessário, como é o caso, mas respeitando a proporcionalidade à população, portanto, sem a deformação que agora deverão fazer.
O ponto central definido pelo constituinte, como se vê nesse caso, é a proporcionalidade de bancada eleita em relação à população estadual, o que, com a alteração prevista por meio do aumento de vagas e não de redistribuição das existentes, entende-se que ficará dissociada da Constituição, o que caracteriza casuísmo, como muitos outros já implantados em nosso sistema eleitoral, podendo ter sua constitucionalidade questionada.


Folguedos juninos
É forçoso afirmar que os folguedos juninos, tal como bem traduziam os antigos, entre eles pesquisadores de escol como Mário Ypiranga Monteiro e líderes de brincadeiras de São João, como meu pai, Lourenço da Silva Braga, não são mais realizados como manda a tradição mais segura. Mesmo assim, ainda empolgam grande parte da população amazonense, mesmo que não respondam ao estilo e a forma que encanta o povo do nordeste do Brasil de onde procede a maioria das danças, adivinhações e culinária típica de que nos aproveitamos para alegrar os dias de Santo Antônio, São João, São Pedro e São Marçal.
Não se vê mais fogueiras nas ruas, troca de promessas e passagem de “primo” em redor do fogo que iluminava as acanhadas ruas de Manaus, e muito menos alguém pegando em agulha virgem para depositar delicadamente nas águas postas em bacias de alumínio ou as moças fazendo a pregação da faca virgem no tronco da bananeira lá pela meia-noite do dia da festa esperando descobrir a inicial do nome do futuro parceiro de vida.
O grande Festão do Povo que Mário Ypiranga começou a organizar pelos idos de 1940 no campo do Pobre Diabo, na Cachoeirinha, e que “O Jornal” e “Diário da Tarde” levaram para o estádio general Osório transformando em grande atração popular, embora resista ao tempo, perdeu toda a sua elegância e em grande parte deixou de traduzir o folclore que nos caracterizava e representava a expressão da essência do povo amazonense, com seu jeito simples de ser. Sucumbiu à invenção de danças sem pé nem cabeça e à imitação desmedida de manifestações forâneas que em nada nos dizem respeito.
O que nos salva – e muito bem salvados, aliás – é o Festival de Parintins -, precisamente pelas apresentações de Caprichoso e Garantido, sempre monumentais e desafiadoras para os registros históricos, de antropologia e de artes cênicas, mesmo que isso tenha implicado no quase abandono das quadrilhas e danças regionais que se apresentam dias antes das grandes noitadas que empolgam e seduzem nos dias finais do mês de junho.
Além de representar o que podemos exprimir como mais amazônico, antes de ser brasílico, o Festival dos Bois de Parintins está a exigir, por isso mesmo, que os estudos acadêmicos recaiam sobre ele de modo a que possamos ter interpretações científicas mais precisas do que se passou e se passa, anos após ano, na concepção, construção e exibição das agremiações folclóricas nas três noites de grandeza.
Sobre a beleza plástica, a qualidade dos letristas e dos compositores das toadas, a empolgação e o espírito que rege a “galera”, a criação e elaboração das alegorias e a integração de tantos figurantes para a contação das histórias e lendas, tudo isso está a exigir, sem dúvida, aprofundados estudos científicos de modo que possamos registrar para o futuro o que se passa na arena na qual o maior desafio não é o tempo de apresentação nem conseguir a harmonia necessária para o espetáculo perfeito, é, sem dúvida, contar o sonho desenhado pela comissão de artes, impressionar o público e convencer os jurados, e acima de tudo: brincar de boi.
Afinal, “brincar de boi é minha sina”, como diz o poeta e é essa a festa mais esperada de todo o Amazonas para a qual a cidade inteira se prepara com esmero, canta e dança sem parar e se veste de gala para receber o povo que vem de fora, azul ou vermelho, são todos bem-vindos à ilha da magia.


As pedras de Itaquatiara
Para falar das ‘itaquatiaras’ devo pedir licença pelo menos a dois filhos naturais da boa terra da “pedra pintada”, muito próximos a mim pela amizade fraterna e convivência atenciosa que estabelecemos no cotidiano e em particular no Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas e na Academia Amazonense de Letras, faz muito: Francisco Gomes da Silva e Elson José Bentes Farias, historiador e poeta.
Com esse introito permissivo creio que posso ousar e falar das inscrições rupestres encontradas em pedras da região, as quais foram reveladas, inicialmente, há muitos anos, quando de uma forte vazante do rio Urubu e serviram de objeto de estudo e tradução por parte de Bernardo Azevedo da Silva Ramos, o ilustre amazonense que traduziu as inscrições das pedras da Gávea, no Rio de Janeiro, formou uma das mais importantes coleções de numismática do seu tempo herdada pela sociedade amazonense em 1900 e exposta no Palacete Provincial, foi o primeiro presidente do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, vereador de Manaus com a República e secretário do Clube Republicano do Amazonas, além de empresário do comércio e presidente da Associação Comercial.
Essas inscrições seriam de origem fenícia e assim foram estudadas em 1919, e noticiadas fora do país, especialmente por revistas inglesas, ainda que pouco valorizadas em nosso Estado e pelo resto do Brasil, durante muitos anos.
Esse marco singular da passagem de outros povos e da presença de outras culturas em nossa região, muito antes da chegada dos europeus que vieram com o intuito de “civilizar”, bem mais tarde foi identificado por um “tal” de Roldão Pires Brandão que se apresentava como arqueólogo e que perambulou por Manaus por algum tempo e, pasmem os leitores, dinamitou o bloco de pedra ou parte dele e levou como se fosse troféu de guerra para o centro da cidade de Itacoatiara, o qual foi instalado nas imediações da sede da Prefeitura, com o fim de se tornar atração turística.
O criminoso fugiu da capital amazonense e das raias do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN, não sei para onde e nem como conseguiu se esconder das autoridades, embora considere que, à época, pelos anos 1970, as autoridades locais não estavam muito bem conscientes da importância desse patrimônio e do papel que ele representaria se permanecesse no seu lugar de origem, mergulhando e submergindo conforme o movimento do rio Urubu, de acordo o ciclo natural das águas.
Quando denunciei o fato ao IPHAN, apenas o meu amigo Alfredo Theodoro Rusins, alto funcionário do órgão federal, se interessou pelo assunto, mobilizou o setor jurídico da repartição, expediu relatório do qual possuo cópia carbonada em meu arquivo particular, e promoveu denúncia aos setores competentes visando a reparação e punição do autor da ação delituosa.
Mais ainda, na época, Rusins revelou, publicamente, que se tratava de um charlatão que já havia praticado outros crimes da mesma natureza em pontos diferentes do país, sempre prestando longas e fantásticas entrevistas a jornalistas e veículos desavisados de sua perigosa incompetência técnica e desvio moral.
O fato é que, até onde sei, esse bloco de pedra com as possíveis inscrições fenícias, ainda se encontra em ponto destacado do centro de Itacoatiara, como mais uma prova da ação vandálica e criminosa desse senhor de nefasta memória.


Visão belga de Manaus – 1878
Tenho procurado reconstituir passagens da vida de Manaus antiga e trazer essas informações ao conhecimento do leitor que me confere a honra de acompanhar meus textos. Pode até ser que para alguns nada disso soe como novidade, mas imagino que a grande maioria desconheça notícias dessa natureza por falta de trabalhos que refiram tais cenários urbanos.
No ano de 1878, a capital da província do Amazonas recebeu dois viajantes-pesquisadores, os irmãos Luiz e Jorge Verbrugghe, belgas de nascimento, em “excursão” pelas densas florestas, a qual motivou estudo de E. Taunay e que agora nos permite recuperar um pouco da paisagem da cidade, de modo que seja possível contribuir em pesquisas sobre a vida citadina às vésperas da elevação da exportação da borracha (1880).
Na ocasião, havia um único e modesto hotel com mínimas condições para receber viajantes ditos ilustres, mas a hospitalidade do povo já se fazia sentir, o que se demonstra no exemplo de um brasileiro que deixou o aposento hoteleiro para permitir a instalação dos belgas.
Uma breve descrição feita por eles a respeito do cenário urbano, em certos aspectos, nos deixa com água na boca de tanto desejo de usufruir de tal tranquilidade. Eles contam que havia quatro igarapés que rasgavam a cidade com águas límpidas e a cercavam por todos os lados. Diversas pontes a ornavam, mesmo com simplicidade. Muitas casas se achavam entre palmeiras, bananeiras e capinzais, e outras em ruelas com flores deslumbrantes pelo caminho.
Ostentando o pomposo título de “palácio”, os prédios do Tesouro, Alfândega e sede da Presidência eram, na verdade, casinholas cobertas de telhas, sem forro e completamente sem luxo, como tudo que havia em razão de um governo provincial longe de ser rico, como assinalado pelos estrangeiros. A igreja matriz estava em obras, mas seu custo já era maior do que o dispendido para a construção do Teatro de Belém, e “era uma granja munida de dois campanariosinhos”, isso ao custo que atingia dois milhões e meio de francos. Cidade plana, com duas cachoeiras a menos de três milhas do centro: a primeira com água fria, e a maior com “um rincão delicioso”, mas água ainda mais fria e queda de alguns pés. Os indígenas, quase todos muito conversadores, respondiam a tudo que fosse perguntado, enquanto os brancos ficam sempre silentes, em qualquer situação.
Mesmo sendo um lugar pobre, havia alguns requintes, pois, aos domingos, os trajes da grande maioria dos moradores eram chiques, sendo que, para os homens, era quase obrigatório o uso de sobrecasaca preta, abotoada, pesada cartola, peitilho na camisa, luvas e sapatos de verniz e, para as mulheres, era costume estarem em roupas de seda importada, apesar do calor infernal e de não haver destino mais nobre para tanto requinte, talvez para demonstrar que era uma cidade de elevada civilização, embora boa parte da população branca fosse de funcionários, pois os belgas assinalam que, dos cinco mil habitantes, três mil recebiam verbas do Tesouro.
Mesmo depois da autonomia política (1850), o quase lugarejo era submetido a taxações absurdas cobradas pelo governo do Pará sobre produtos que adentravam ao Rio Amazonas, razão pela qual o que mais se falava era na necessidade da instalação de um banco europeu para fugir dos juros paraenses que eram altos, chamados de sanguessugas pelos belgas-visitantes.
Padecendo da distância e dificuldades de transportes e comunicações, as ordens imperiais chegavam a Manaus com três meses de retardo, mas foi deste porto que os belgas partiram na igarité “Boa Esperança”, com um cozinheiro branco e um tapuio, mais o escocês Mr. Harvey, levando café, açúcar e bolacha, até embarcarem no vapor “Óbidos” e subir o rio para caçar, mas não se sabe muito bem o que caçaram.