
Um clássico da Amazônia
Desde há muito, quando comecei a reunir livros visando conhecer um pouco sobre a região amazônica, lá pelos meus 12 anos, verifiquei que havia necessidade de escolher algumas obras e autores que, pela alta qualidade, deveriam me acompanhar em leituras e releituras sobre determinados aspectos, mesmo polêmicos, muitos dos quais também exigem que apreciemos variáveis geográficas, políticas, econômicas e sociais para melhor entendimento dos acontecimentos a que se reportam.
Um dos livros com essa característica que trata de um caso específico de relações entre estados brasileiros é de autoria de um escritor de boas letras, sempre considerado nas rodas nacionais o qual foi dado a público em 1899, mas, mesmo com informações sérias e bem-sustentadas em documentos, foi muitas vezes rebatido em seus argumentos sem ser inteiramente superado em suas razões: José Veríssimo e o seu “Pará e Amazonas – questão de limites”.
Obra publicada pela Companhia Tipográfica do Brasil, do Rio de Janeiro, ainda quando na Rua dos Inválidos, sem maiores esmeros gráficos, disseca o problema que afligiu nosso Estado por muitos anos, desde a alteração de limites que o governo provincial paraense nos impôs em 1833 ao procurar regulamentar o Código Criminal do Império e avançou sobre terras rio-negrenses, definidas como tal em 1755 quando da criação da Capitania de São José do Rio Negro, ao tempo do marquês de Pombal.
Paraense de nascimento, estudou em Manaus, Belém e Rio de Janeiro. Foi jornalista e professor e conseguiu alguma projeção nos meios literários e de conferencistas no exterior. Entretanto, foi como estudioso da literatura brasileira que se firmou na antiga capital da República, onde também teve prestígio no magistério e na imprensa, com relações sociais importantes o que culminou com a criação da Revista Brasileira e da Academia Brasileira, graças às relações que manteve com Lúcio de Mendonça, Machado de Assis e Visconde de Taunay.
Adepto do Naturalismo, cultivou a crítica literária com considerável profundidade para a época, e não teve receio em se afastar da Academia quando entendeu que uma das escolhas para a composição do plenário, tal como se fizera, não correspondia a um homem de letras e literato.
Na obra em que trata do direito do Pará às terras de que falei, foi contestado com veemência por membros do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas como Agnello Bittencourt, Miranda Simões e notadamente por Furtado Belém, este que se dedicou em alentado estudo de que tratei recentemente neste canto de página.
Quando trata das cenas amazônicas em outro título de sua lavra, ou da história da literatura, da educação nacional, do Colégio Americano e em artigos lançados em sua Revista Brasileira, não lhe faltam atenção com o idioma, sensatez nos argumentos, clareza na exposição, linguagem escorreita, mas, no caso vertente sobre os limites do Pará e Amazonas, se deixa levar pela paixão, ainda que não perca a qualidade de bem escrever.
Recentemente revisitei algumas das obras de Veríssimo motivado pela solenidade na qual o Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, sob a lúcida presidência de José dos Santos Pereira Braga, deu posse ao novo titular desta Cadeira, o professor doutor Júlio César Brandão que, em bela peça de apreciação da vida e obra do patrono, em síntese valiosa, discorreu com maestria sobre Veríssimo no cenário amazônico em par com a recepção que lhe fez a sempre ilustrada Marilene Corrêa da Silva Freitas.
Por tudo que produziu, Jose Veríssimo merece o título de “clássico da Amazônia”.
