

Asilo para indígenas
Não é nova a preocupação de algumas personalidades mais categorizadas em Manaus com crianças pobres, “meninas desvalidas” e indígenas abandonadas ou em situação de vulnerabilidade social, como se diz nos tempos correntes. Na fase de nosso conhecimento pessoal, salta aos olhos o trabalho e empenho hercúleo de André Vidal de Araújo, seja como juiz de menores, seja como sociólogo e desembargador, legando inúmeras casas e serviços públicos e associações de apoio a esses menores.
Ainda nos tempos mais antigos da Província do Amazonas (1852-1889) e do Império do Brasil (1822-1889), pelos idos de 1867, em uma vila ainda bem acanhada e de população urbana reduzida, o padre e doutor João Manuel dos Santos Pereira, de grande influência na cidade, diante das condições em que padeciam inúmeras meninas, resolveu fundar em 26 de julho daquele ano, um asilo especial a que deu o nome de Asilo “Nossa Senhora da Conceição”, em natural referência à santa padroeira do lugar.
Para tanto, usando do seu prestígio junto ao governo e aos políticos e grupos dominantes, obteve subvenção dos cofres provinciais na ordem de rs. 4.000$000, para acolher 10 meninas indígenas desvalidas, dando a elas, além da assistência espiritual, apoio educacional e preparação para a vida, conforme os moldes usados naqueles anos.
Pouco tempo depois, estava funcionando para atender 23 meninas, em regime de internato e externato, para as quais ensinava as primeiras letras, música (canto religioso e piano), francês, geografia, história sagrada, história do Brasil, catecismo e prendas domésticas.
Diante de inúmeras dificuldades, especialmente de professores que se dedicassem a essa missão, o padre João Manuel decidiu por encerrar as atividades do internato em junho de 1872, mas o fez com critério, rescindindo o contrato de subvenção que havia firmado com o governo da Província do Amazonas, não sendo conhecido o destino que tiveram as alunas que vinham sendo atendidas nessa escola.
Medida semelhante seria repetida em 1884, na presidência provincial do Dr. Theodureto Carlos de Faria Souto, o mesmo que imprimiu solução na escravização de africanos residentes na província amazonense, com a criação do Asilo “Elisa Souto”, em homenagem a sua esposa e abolicionista, instalado na antiga chácara do Barão de São Leonardo, desta feia não só para meninas indígenas, o qual foi ampliado e retornou a ser exclusivo para indígenas e teve sua denominação alterada para Instituto “Benjamin Constant”, no governo de Eduardo Ribeiro (1892-1896), o que pode ser considerado uma de suas grandes obras no campo da educação, que foram muitas.
Essa preocupação com as meninas indígenas, segundo cronista de imprensa da época, decorria do fato de que muitas delas perambulavam desde as ruas da Barra, depois Manáos, sem moradia certa, sem convivência com familiares adultos e expostas a agressões, sujeitas a serem submetidas a sevícias, inclusive sevícias sexuais. Isso porque a transferência de grupos e famílias de povos originários dos altos rios para as sedes das cidades não era feita por interesse ou decisão desses grupos, como se pode pensar, mas por imposição das condições de vida, em decorrência da atração de bens de troca oferecidos na capital, mas, sobretudo, em razão de cooptação que redundava, quase sempre, em escravização para o trabalho de interesse de famílias de origem europeia e da própria igreja católica.
As políticas públicas para indígenas, pois, são necessidades antigas em nossa sociedade e continuam a ser indispensáveis, agora moldadas em critérios completamente diferentes dos que referimos.


Despedida de Carnaval
Sempre fui carnavalesco, desde bem jovem, talvez seguindo a trilha de meu pai, o criador do “Brigue Independência”, também brincador e líder da “Nau Catarineta” que saiam no carnaval e nos festejos de São João, em meio a muitos outros “brinquedos” de rua e folguedos alegres que circulavam por Manaus nos anos mais antigos, principalmente de 1914 em diante.
Logo nos meus primeiros artigos em jornal me animei em falar do período momesco desde quando de sua preparação, ou seja, na fase em que a cidade começa a se envolver nos preparativos para a ocasião singular que identifica muito bem o ânimo do brasileiro e, como diz o vulgo popular, tem a nossa cara e o nosso jeito. Continua sendo a maior festa popular brasileira, mesmo que, no curso dos anos, a forma de aproveitar o carnaval venha sendo modificada grandemente, várias vezes, pois, na minha juventude primeira (porque me encontro na terceira juventude), já não era a sombra do que havia sido nos tempos em que meu pai foi folião e em breve não será mais como se brinca na atualidade.
E quando tive oportunidade de valorizar e estimular o bom carnaval amazonense, fiz todo o empenho para que os blocos, escolas de samba, carnavalescos e líderes de agremiações, foliões isolados e artistas, criadores e desfilantes com fantasias de luxo e originalidade, tivessem espaço para aproveitar o período do rei da folia.
Nas leituras sobre folguedos do povo, que costumo fazer com certa frequência, uma coisa me chamou a atenção ao rever apontamentos sobre o carnaval de 1925, ano do início de curta harmonia política no Estado, logo depois da turumbamba revoltosa que apeou Rego Monteiro do governo do Estado, harmonia que foi interrompida em 1930 pelo golpe getulista, mas que não haveria de perdurar por largo período porque as oligarquias locais dificilmente manteriam aquela “boa conversa”, cada uma delas querendo apanhar quinhão maior dos cofres públicos e nomear maior número de empregados públicos.
É que naquele 1925, cem anos passados, precisamente, uma notícia da revista “Redempção”, edição de fevereiro, despedindo o carnaval com poesia na prosa, falava que o “sorriso melancólico de Pierrot e Colombina já se esmaeceu num beijo desesperançado, enquanto casquinava lá fora, para além da alameda em sândalo e penumbra, a guisalhante alegria de Momo…”.
Na atualidade, nem mais se fala nessas figuras-símbolo do carnaval mais tradicional, e até o Rei Momo vem sendo estilizado para agradar à moda dominante que impõe novos trejeitos, fantasia e função no curso dos folguedos dos quais ele seria o maior e mais qualificado representante.
Dizia o cronista antigo que “o carnaval seduziu os espíritos, aproximou os lábios, e desapareceu enroupado em saudade, morto nas cinzas que surgiram do incêndio de três dias…”. E era mesmo assim: três dias de folia e brincadeira, como dizia a música popular, nos quais percorríamos alguns salões de clubes de Manaus, seja os mais sofisticados como os mais simples, passando pelo Rio Negro, Ideal, Olímpico, Cheik, Bancrévea, ASA, AABB e, algumas vezes, pelo Nacional, São Raimundo, União Esportiva Portuguesa e União de Constantinópolis, sem faltar, ao final, o bom mingau tomado na tigela no mercado grande, a missa na igreja matriz para pedir perdão pelos pecados cometidos nesse tríduo de grande alegria e o mergulho matinal da quarta-feira de cinzas na piscina do Parque Aquático do Atlético Rio Negro Clube para afogar as mágoas e retemperar as energias, porque, somente depois de toda essa campanha de festas é que o ano novo poderia começar.
E viva o pandeiro e o tamborim, a Kamélia, o Rei Momo, o Pierrot, a Colombina, o Brigue Independência, a Nau Catarineta, a Escola de Samba Em Cima da Hora e a Unidos da Selva – as pioneiras da modernidade – e todas que as sucederam.


O homem de sete instrumentos
Prestou relevantes serviços ao Amazonas, notadamente no período áureo da economia da borracha, mas também em tempos depois desse apogeu, um paraense – Arthur César Moreira de Araújo – que fez carreira no magistério, no campo militar, na engenharia, na empresa privada e na política, daqueles que se pode dizer que tocava sete instrumentos, e todos eles com qualidade.
Engenheiro militar, a ele foi acometido atuar nas obras finais de construção do Teatro Amazonas, ser fiscal das obras do Porto Flutuante de Manaus, autor do projeto de construção e arruamento da Vila Municipal, atual bairro de Adrianópolis; autor do projeto de construção do Cassino Julieta, depois Cineteatro Guarany, integrar a equipe de estudos das obras de esgotos sanitários em Manaus, por exemplo.
Como professor, lecionou Geometria Analítica, Cálculo Diferencial e Integral na Faculdade de Engenharia; Álgebra Superior e Geometria Analítica na Faculdade Militar e Curso de Agrimensura; Mecânica e Astronomia, na Faculdade de Ciências e Letras, membro da Comissão Científica e Diretor da Faculdade de Engenharia e Presidente das bancas de exames de Ciências e Letras e Agrimensura, e desempenhou o importante cargo de diretor-geral, tudo na Universidade de Manáos. Além disso, foi professor catedrático de Matemática e Astronomia do Ginásio Amazonense Pedro II, mediante concurso; diretor do mesmo Ginásio; professor de Matemática e diretor da Escola Técnica de Comércio “Solon de Lucena”.
Como militar, formado na Escola de Realengo, no Rio de Janeiro, serviu em Belém e Manaus, e foi comandante Batalhão de Polícia do Amazonas, sempre inspirado por Benjamin Constant, e com larga compreensão do positivismo.
Na política, foi Superintendente Municipal de Manaus (1898-1902), denominação que era conferida ao cargo de Prefeito, como homem de confiança de outro positivista, o governador Fileto Pires Ferreira, mantido por José Cardoso Ramalho Júnior, desenvolvendo forte atuação em educação, urbanismo, sanitarismo, inclusive com a inauguração do cemitério de São João Baptista, que era uma necessidade premente na época.
No campo da iniciativa privada, foi sócio da empresa Telefônica de Manaus ao lado de Lourival Alves Muniz e José Avelino Cardoso, adquirida em transferência do dentista Heliodoro Jeramilo, em condições comerciais e de funcionamento bastante precárias. Os novos proprietários reanimaram a empresa com nova dimensão e valorização empresarial, ainda que com aporte do Estado, feito em libras esterlinas.
Poliglota, com fluência especialmente em inglês, francês e alemão, integrou a Sociedade Astronômica de França.
Casou-se com Donolina Nogueira Fleury, tendo os filhos César e Lúcia. César foi médico e Lúcia contraiu núpcias com o Dr. Augusto César Lopes Gonçalves, advogado e político com atuação em Manaus e no Rio de Janeiro. Faleceu no Rio de Janeiro em 22 de julho de 1935.
O que resta em sua memória e homenagem a essa grande contribuição ao desenvolvimento do Amazonas é uma modesta Escola pública estadual, embora mereça todas as honras de quem atuou em várias frentes de trabalho, com denodo e honradez.


Além dos microfones
Quando foram estabelecidas as emissoras de rádio no País, era comum dizer-se que os jornais impressos haveriam de padecer e perder o protagonismo, precisamente pela rapidez com que essas novas mídias fariam chegar as últimas notícias ao conhecimento do grande público. Depois, a elas foram incorporadas a radionovela, a transmissão dos jogos de futebol, os programas de auditório e os de animação e sorteios, os de recados para o interior, os de música e, mais adiante, os de orações e pregações religiosas. Esses veículos de comunicação dominaram e ainda têm enorme influência nas relações sociais, comerciais e políticas da sociedade atual.
Nesse campo, Brasil afora, surgiram os grandes comunicadores, nomes que se tornaram ícones da radiofonia, verdadeiramente emblemáticos, e que, também por isso, se projetaram em outros campos de atuação, especialmente na política. Alguns destes, entretanto, possuíam e possuem formação ainda mais apurada e qualificada em outras áreas de estudo e de trabalho, das quais nunca se afastaram, conciliando com a atividade de comunicação social. Não raro, atendem a uma paixão, herança ou tradição.
Na história da radiofonia amazonense, resultado de paixão, tradição e herança, há um destacado profissional da comunicação, administrador de empresa, festejado homem público que já exerceu inúmeras e relevantes funções de governo e eletivas, nas quais sempre atuou com entusiasmo, idealismo e competência, além de elevado espírito público.
De timbre de voz inconfundível, linguagem própria e ritmo contagiante no falar radiofônico, fez com que a cidade inteira se acostumasse a despertar com sua alegria – na música e na voz -, e usou frases que se tornaram célebres como “bom dia dona Maria”, “olha a hora dona Aurora”, “em cima do prato e debaixo da agulha”, “Difusora, o amor do Amazonas” as quais eram capazes de conduzir a manhã de todos os dias em especial as de domingo, mandando recados para os amigos das feiras e mercados, anunciando a posição das águas do Rio Negro ou informando as previsões do tempo e as suas conclusões a respeito do resultado das eleições, sempre que elas se processavam em Manaus, sem temer as borrascas dos poderosos.
Desportista, administrador, político, homem altivo, divertido, brincalhão, dinâmico, esse gênio da comunicação tem nome, raça e “pedigree”, compõe uma bela página na história política, social e econômica do Amazonas e é capaz de reunir amigos durante dezena de anos em derredor de uma boa conversa e muitas rodadas de dominó e, ao mesmo tempo, ser presidente do Poder Legislativo de Manaus e do Estado, assumir a tribuna parlamentar com veemência e sagacidade, ser secretário de Estado da Educação, Ouvidor Geral do Estado, conselheiro e presidente do Tribunal de Contas do Estado, sempre sem pose sofisticada, sem a majestade que muitos costumam demonstrar, mas atuando com critério ético, honra e dignidade. Portanto, muito além dos microfones.
Ademais, e como prova do enorme apreço que os amazonenses têm por ele, em todas as eleições que disputou foi campeão de votos, portanto, detentor do legítimo aplauso popular que pode ser conferido ao político, e campeão de audiência no seu programa de rádio, privilégio de poucos e tradução do reconhecimento dos ouvintes.
Por tudo isso, Josué Claudio de Souza Filho está no coração do povo amazonense.


Arnaldo: Supercampeão
Depois do forte impacto sofrido em razão da notícia que me chegou por telefone, informando que o desenlace se dera há poucos minutos, emocionado e triste me recolhi em orações contritas em agradecimento pela nobre passagem terrena do amigo e profissional de alto quilate que tive o privilégio de conhecer: Arnaldo dos Santos Andrade.
Durante alguns dias tentei escrever em sua homenagem para publicação neste canto de página que ele fazia questão de ler semanalmente e, quase sempre, tecer comentários elogiosos, animadores e saudosistas. Era generoso!
Nossa amizade vinha de antes de nós. Decorria da relação fraterna entre nossos pais – Lourenço Braga e Francisco Caetano de Andrade – que atuaram juntos na política partidária, eleitoral e sindical do começo dos anos 1930, na defesa dos direitos dos trabalhadores, quando compuseram os quadros do Partido Trabalhista Amazonense -PTA. De lá em diante, todos nós, de lado a lado, seguimos amigos e caminhamos nem sempre juntos, mas nunca apartados dos valores que os pais nos legaram. Foi bom filho e pai extremado!
Tenho presente o dia em que foi convidá-lo, em nome do governador Amazonino Mendes, para dirigir a área de Esportes do governo estadual e, aberto a desafios, mas atento aos compromissos assumidos, honrado com o convite, mas preso ao trabalho que vinha realizando na empresa privada, preferiu debater com seus superiores para, só depois, aquiescer ao chamamento que lhe fora feito para mais uma vez servir ao desporto amazonense. Seu trabalho ganhou destaque imediato. Era competente!
Pouco depois, reformulada a estrutura da Administração, o Esporte foi incorporado à Secretaria de Cultura e Estudos Amazônicos e para nossa alegria – dele e minha, bem sei – fomos trabalhar lado a lado na construção dessa relação (cultura e esporte e esporte como cultura social), a partir de seminários e debates sérios e profundos com técnicos e especialistas e, mais uma vez, ele se destacou pela clareza das apreciações, pela pertinência de suas abordagens. Foi uma demonstração de grandeza de sua parte, integrar uma equipe jovem que sonhava alto. E ele sonhou junto e construiu conosco os primeiros desenhos do sonho que se realizou por 21 anos. Era idealista!
Com ele, e por iniciativa dele, dentre inúmeras realizações, pode-se referir a regata Cambridge-Brasil-Oxford nas águas do rio Negro, com uma organização impecável, a merecer elogios de quantos acompanharam a iniciativa ou dela participaram. Era perfeccionista!
Muito mais tarde, fui encontrá-lo no comando do grande campeonato do Peladão, inovando, construindo e reconstruindo ideias que ampliassem ainda mais essa competição criada por Umberto Calderaro e que permanece com sucesso, passados 50 anos. O “Peladão” de agora tem o toque de sua genialidade e a gestão operosa e dedicada da família de “A Crítica”, liderada por Cristina Calderaro Corrêa e Dissica Calderaro Thomaz, exemplo bem-sucedido de empresa familiar que permanece progredindo. Era inovador!
Nosso último encontro foi de abraços, sorrisos largos, conversa franca, como sempre sucedia, dessa feita no corredor do Teatro Amazonas, após um belo espetáculo de balé. Disse-lhe do livro que publicara contando as histórias do PTA e dos nossos velhos comandantes – Lourenço e “seo” Caetano –, mas sei que ele não chegou a ler como era de seu ardente desejo. Na ocasião, deu-se o abraço fraterno que repetia inúmeros outros que ele e meus irmãos João e José confraternizaram em diversas empreitadas e dos quais sempre ouvi considerações de respeito e elevada admiração em relação ao desportista e ao cidadão Arnaldo Santos. Era bom amigo!
Há um vácuo no Amazonas, desde que ele caminhou para novas responsabilidades e encargos em outros campos da eternidade, passado o tempo do desligamento da matéria. Afinal, Arnaldo foi craque na vida.


Dever de correção
Ainda findava o ano de 2024 quando constatei, de bom grado, que o prédio sede da ESAT- Escolar de Artes e Turismo da Universidade do Estado do Amazonas, na Rua do Leonardo Malcher com Rua do Major Gabriel, de cuja unidade de ensino fui o primeiro diretor aquando da criação e instalação da UEA, teve a sua apresentação exterior inteiramente reformada, com obras e serviços de engenharia de conservação que, de há muito, se faziam necessárias.
Edifício que pertenceu à EMBRATEL – Empresa Brasileira de Telecomunicações durante vários anos, muito bem construído, foi o primeiro prédio adquirido pelo governo do Estado para a Universidade, logo nos primeiros tempos em que o governador Amazonino Mendes criou a instituição e conferiu ao professor Lourenço Braga a incumbência de torná-la realidade, desde o primeiro ato e após uma reunião informal em sua residência em uma manhã de sábado.
Escolhido pelas condições físicas ideais que oferecia, localização, acessibilidade e, principalmente, custo de aquisição, quando identificado, o prédio foi visitado por grupo de assessores do governador e pelo reitor os quais, de logo, verificaram que a edificação preenchia as condições exigidas para a ocasião, pois era capaz de acolher vários serviços, inclusive a biblioteca central, os cursos de artes e de turismo e até mesmo o de Direito e o de mestrado em Direito Ambiental, como sucedeu pouco depois.
Resolvida a questão documental, com todo o critério justo e legal necessários, o reitor expediu portaria dando o nome do professor Samuel Benchimol à primeira unidade da nova Universidade, em justo reconhecimento à expressiva – expressiva e qualificada – contribuição que o ilustre mestre prestou ao ensino, às artes, às letras, à economia do Amazonas, e à Amazônia, razão pela qual mereceu o destaque honroso.
Para tornar a decisão devidamente conhecida do grande público, não só dos universitários, professores e servidores da Casa, o reitor mandou inscrever, na placa de inauguração e em totem disposto na via pública, o nome do professor Samuel Benchimol em letras visíveis, de modo que a sociedade amazonense tomasse conhecimento que a Universidade reconhecia, logo nos seus primórdios, o papel de educador e amazonólogo.
Para minha surpresa, as recentes obras de recuperação das fachadas do prédio que se faziam necessárias como disse acima – resultaram em suprimir do totem da via pública o nome do ilustre professor, preferindo indicar que se trata, unicamente, da sede da Escola de Artes e Turismo da Universidade do Estado do Amazonas.
Lamentável omissão e desconhecimento da importância que o mestre teve na educação superior amazonense, na projeção do Estado no campo das letras, da pesquisa documental na Europa sobre a Amazônia, das artes como incentivador de criadores culturais e como cidadão cônscio de sues deveres com o País e a sociedade. Por isso, é urgente que a Universidade adote providências para recompor a placa e fazer incluir o digito seguinte: Edifício Professor Samuel Benchimol, por ser da mais lídima justiça, por ser dever de correção e para impedir o apagamento da memória universitária.

30 anos sem Vargas
O país inteiro deve reverenciar no dia de hoje, a figura de Getúlio Dornelles Vargas, questionada por tantos, levada aos mais profundos debates político-sociais, por si e por sua obra política, mas acima de tudo, comprometido com a história deste país que, de qualquer forma, nenhum extremista poderá deixar de atribuir ao homem e ao Presidente, méritos de reformas sociais que foram, à sua época, da maior importância, e que ainda hoje repercutem na vida do trabalhador brasileiro. O silêncio de Vargas 30 anos depois de provocado por cisão política em seu próprio governo deve servir para uma reflexão de todo o país, exatamente no momento em que grandes transformações podem acontecer na vida da nação geradas pelo quando sucessório e seus desdobramentos naturais, para o qual deve prevalecer, sem dúvida e para a felicidade de todos, os real interesse da Pátria.
Rememorar Vargas neste 24 de agosto é também rever o trabalhismo no Amazonas, pelo menos em uma das suas feições, aquela que originou todo o movimento a prol, do trabalhador, como certa feita declarou-me meu venerando pai, Lourenço da Silva Braga fundador e Tesoureiro do Partido Trabalhista do Amazonense – PTA – “criamos um partido para ser a voz do trabalhador de todas as classes, para exigir justiça social e interferir na gestão dos poderosos”.
O Partido Trabalhista Amazonense, que reuniu antes outros líderes de classe, o Comandante Luis Tirelli, Armando Faria da Cunha, Oscar Costa Rayol, Antonio Vasconcellos, Vivaldo Palma Lima, Francisco Cantano de Andrade, Lourenço da Silva Braga, David Benayo, Antonio Djard de Mendonça, Francisco Salles, José S. Cavalcanti, Jonas _, Aristides Brasil.
Candidatos eleitos pelos trabalhistas – trabalhadores em 1934 foram Luis Tirelli e Alexandre Carvalho Leal – Deputados Federais.
Na verdade o gesto (ativo) do Presidente, ou mesmo debaixo da versão de assassinato (o ato) imposto à Nação brasileira naquele sombrio ano de 1954, levou a um estrarrecimento, uma estupefação das maiores já vistas neste país. De repente a pressão dos algozes sobre a figura presidencial, os ditamos partidários contrários ao trabalhismo de Vargas, sentiram – e devem ter sentido muito mais – anos depois, que passando por sobre o cadáver de Getúlio não fariam, como não fizeram, uma hegemonia diferente no governo nacional, porque lhes faltava até liderança e capacidade de serem amados pelo povo, coragem e decisão cívicas para empreender campanhas favoráveis, de verdade, aos trabalhadores. Nem por sobre o seu cadáver mudaram o Brasil como ele mudou a partir de 1930. Ao contrário, a consternação dos brasileiros de todos os quadrantes foi tão grande que, na maioria dos casos, restou-lhes o silêncio, senão o soluço de suas consciências, porque o destemido gaúcho fez herói do seu povo até mesmo enfrentando os mistérios da morte. Agigantou-se o homem, eternizou-se o espírito, fortificou-se a obra, engrandeceu-se diante da Pátria (diante dos conceitos que pregou por toda a vida).
Ao recorremos à imprensa diária de Manaus, editada nos anos 50, verificamos a opinião do líder trabalhista ainda hoje resistente a todas as intempéries da carreira impôs, que é Plínio Ramos Coelho, à época jovem militante do trabalhismo, defensor de idéias e ideais que rompiam a política tradicional, disse ao Diário da Tarde (Mão, 24.08.1954, ano XVII, nº 5701), “A morte física de Vargas é, pelas suas causas, a ressurreição do povo (…) Vargas em espírito, em todo o território nacional, estará comandante”. De outro lado, a observação do então Secretario de Estado do Interior e Justiça, Dr. Armando Andrade de Menezes, no mesmo jornal, demonstra que as oposições de então, reconheciam a surpresa, o impacto do fato, e não podiam deixar de proclamar méritos do Presidente. Disse, o secretário “Todos esperávamos dos acontecimentos desenrolados na capital federal, qualquer outro resultado que não esse. Porque, esse, realmente, confrange o coração, não seriamos nós, nesta oportunidade, ainda que considerá-lo um grande estadista”.
O país parou e chorou. E depois deste silêncio de 30 anos, onde a história ocupou lugar diferente na vida nacional, com rumos, sucessos e insucessos na marcha do tempo, inexorável marcha para o indefinido, incerto, impossível às vezes, o que deu a Nação e o que ganhamos todos, com Vargas e sem ele. Quais as lições da sua vida e da sua morte? O que restou do trabalhismo que pregava e das mensagens do operariado que partiam de todo o Brasil e que ele incorporou aos seus discursos.
Discutir Vargas é preciso, porque é também discutir o Brasil do passado de agora e do futuro.


Crime Tropical
Não é comum que utilize esse espaço domingueiro para tratar de assuntos do cotidiano atual da cidade, salvo quando o tema tem realce desmedido e pode trazer consequências irreparáveis para os verdadeiros e legítimos interesses coletivos, como é o caso de hoje.


Robério Braga, O dia da renúncia
O fogo que dominou todo o edifício de mais de duzentos anos avançou sobre a memória do País e de todos os brasileiros, e, em pouco tempo, transformou em cinzas o trabalho centenário de pesquisadores, doutores, operadores da arte e das culturas, de várias outras nações, das nossas origens e da formação da nacionalidade"


Desastre anunciado
O fogo que dominou todo o edifício de mais de duzentos anos avançou sobre a memória do País e de todos os brasileiros, e, em pouco tempo, transformou em cinzas o trabalho centenário de pesquisadores, doutores, operadores da arte e das culturas, de várias outras nações, das nossas origens e da formação da nacionalidade"