

Obras de valor
É certo que a bibliografia sobre a Amazônia, e a região do Rio Negro e a Província e o Estado do Amazonas, em particular, é vasta, ainda que algumas poucas nem sejam recomendáveis, mas há certas publicações e autores que merecem referência especial, seja pela clareza com que escreveram ou escrevem, pelo nível de aprofundamento dos textos assim como pela farta documentação em que se baseiam, razão pela qual acabam se constituindo em obras de consulta obrigatória, conforme o tema de interesse do pesquisador.
Há até aquelas que vêm sendo reeditadas com alguma frequência, como sucede com a “História do Amazonas”, de autoria do professor Arthur Cézar Ferreira Reis, a “Fundação de Manaus”, do mestre Mário Ypiranga Monteiro, “A Cidade de Manaus”, de sempre considerado Bertino de Miranda Lima, por exemplo, dentre diversas outras que têm merecido maior circulação.
Dentre as instituições culturais amazonenses, a Academia de Letras e o Instituto Geográfico e Histórico têm se dedicado a esse mister, assim como sucede com a Universidade Federal do Amazonas e, no campo das empresas privadas, a editora Valer, todos prestando relevante serviço às letras, às ciências e, com isso, notadamente aos estudiosos dos temas amazônicas.
Dias desses pude constatar, mais uma vez, quão valiosas são “Limites Orientaes do Estado do Amazonas”, original de 1911, de autoria de Furtado Belém, e “Manaus”, da lavra de Agnello Bittencourt, o filho, este que foi mandado publicar ao tempo em que fui Secretário de Estado de Cultura, dentre os mais de oitocentos títulos então editados ou reeditados.
O primeiro, com o propósito maior de demonstrar a forma de ocupação das terras amazonenses pelo governo paraense, principalmente em razão da alteração que este mandou proceder quando determinou o rebaixamento da Província do Rio Negro à condição de Comarca do Alto Amazonas, em 1833, deformação ilegal que perdurou por muitos anos e ensejou inúmeros estudos, debates, reivindicações e ações judiciais por parte do governo amazonense, desde o período imperial, e atravessou boa parte da Primeira República (1889-1930), além de evidenciar as várias cidades que foram se sucedendo ao longo dos anos; o segundo, com originais recebidos em doação pela família do autor, para que fosse publicado pelo Governo do Estado, o que se realizou em 2012, depois de seu falecimento, analisa com bastante clareza e linguagem direta, o condicionamento geográfico de Manaus sob as percepções de espaço, posição e sítio, destrincha a origem da cidade, cuida da sua evolução demográfica, da posição da cidade em relação à chamada Amazônia Interior e alcança a cidade moderna, percebe as diversas cidades que nela se contém e conclui apreciando causas e consequências da estagnação e da explosão.
São dois livros dignos de figurar nas estantes dos pesquisadores mais competentes e dedicados ao estudo de nossa geografia e história, sem favor algum, e deveriam ser utilizados em cursos de pós-graduação universitária como se faz com catecismo na formação cristã.
São duas obras de valor por escritores de elevada estirpe.


Político sem mandato
A política encanta, seduz, empolga e é capaz de conduzir, especialmente os mais jovens, a enveredarem pelos caminhos partidários em busca do exercício da representação popular, de conquistarem a confiança do eleitor. Ao mesmo tempo, a política, tal como se conhece na atualidade, também assusta, amedronta, desencoraja, porque nem sempre é exercida visando os seus fins e, não raro, é desviada para escaninhos escuros e indesejáveis para pessoas de bem.
Tempo houve em que o exercício do mandato parlamentar exigia dotes de oratória que fosse capaz de impressionar, convencer e fidelizar o eleitor; o mandato de executivo, além das qualidades oratórias, reclamava pendores para a liderança e organização e gestão do Estado. E há muitos exemplos bem-sucedidos que poderiam ser referidos, em ambos os casos.
Outra vertente, também de grande importância para a sociedade democrática, nem sempre conta com apaixonados cultores, qual seja a de exercer a boa e salutar política no cotidiano da vida, no encaminhamento dos filhos, no aconselhar os amigos, no conversar, analisar possibilidades de candidatos e os cenários possíveis a serem desenhados pelos acordos partidários. Seria, pois, respirar política e viver política no reservado da própria residência, no escritório de trabalho profissional, na aproximação com esse mundo sensível, rico de experiências e que, sem dúvida, seduz, especialmente aos devotados às liberdades, à democracia e defensores do desenvolvimento do país. Isso faz com que quem nunca tenha disputado uma eleição diretamente se empenhe em construir ou ajudar a construir candidaturas que fortaleçam o bem comum.
Tive o privilégio de conhecer algumas personalidades com esse perfil e com elas, de certa forma, estabelecer uma proximidade e, sobretudo, admirar essa característica humana que rareia a cada dia.
Um desses homens de escol partiu há poucos dias para os mundos estelares na continuidade da vida espiritual que é eterna: Carlos dos Santos Braga. Verdadeiro político, na acepção mais completa do termo, animava-se a cada período de campanha e a tal modo que ajudou a construir e apoiou de forma decisiva a candidatura do irmão, João Braga, a deputado estadual, prefeito de Manaus e senador da República. Depois, tendo encaminhado a família para uma formação humana e justa, foi de grande impulso para a carreira vitoriosa de Eduardo Braga, seu filho, inaugurada como vereador de Manaus e caminhada como deputado estadual, deputado federal, vice-prefeito e prefeito de Manaus, governador do Estado e senador da República. E quando falava desse ânimo que o conduzia para a política, seus olhos ganhavam mais brilho e sua voz se fortalecia. Era visível o entusiasmo.
Não foram poucas as conversas que travamos no escritório de sua residência, com ele sempre à cabeceira da mesa, trajando roupas elegantes e clássicas para a sua idade, pronto como se fosse a uma solenidade, bem barbeado e penteado, ocasião em que fluíam vários assuntos, mas o tema central era política, variando por sua devoção por Nossa Senhora de Nazaré, a sua fidelidade às origens paraenses, a sua enorme paixão pelo Amazonas e suas potencialidades e, de entremeio, algumas lembranças saudosistas da juventude, da história das empresas que criou, dos sucessos e das lutas que travou para vencer e os novos santarenos que haviam chegado a Manaus e que ele fazia questão de procurar conhecer.
Carlos Braga era um brasileiro apaixonado pelo país, pela política e pela família. Um genuíno político sem mandato.


Olhar profundo e doce
Era um olhar profundo e doce aquele que me abençoava todos os dias desde quando era menino levado, o mesmo que deve ter repousado sobre mim pela primeira vez, quando do meu nascimento e desde então se fez cercado de encanto.
Às vezes me parecia azul, tão reluzente como se fosse o céu mais límpido que a natureza pudesse nos oferecer; às vezes transparecia as águas cristalinas do seu Pernambuco, da Piedade pequena de Jaboatão dos Guararapes. Mas era, sempre, o olhar que bendizia a vida que ela tanto amava e a qual nos ensinou a amar. Olhar que foi ficando ainda mais translúcido conforme o tempo foi passando.
Era com este olhar penetrante que ela abençoava, perdoava, ensinava e confessava a sua paz de espírito, como se estivesse repetindo o que costumava dizer: os olhos são o espelho d´alma. A encantadora alma de mãe, professora, esposa, filha e da menina que brincou de “psi-pau”, sonhou ser pianista e parecia ver seu desejo se perder na saudade, quando decidiu confessar aos filhos o que tanto aspirava desde criança, e pudemos torná-lo realidade.
A candura em alma de mulher que se fez forte desde cedo para conseguir enfrentar as dores do caminho, dores que sentiu fundo ainda pelos quatro anos pelo encantamento espiritual do próprio pai, depois da mãe e em seguida do irmão mais velho que ficara cuidando da família.
Encantadora mulher que ajudou a dirigir a família que construiu com serenidade, e o fez com mãos entrelaçadas com o seu Lourenço, cujo prenúncio de conhecimento se deu em brincadeira de adivinhação de São João e que se fez seu companheiro por toda a vida, após os discretos passeios de bonde nos quais as mãos se encontravam timidamente. Depois, foram estas mãos, unidas por dádivas de Jesus, que nos guiaram pelas sendas mais justas, honradas e dignas que nos permitem olhar o mundo de fronte erguida, após muitos anos de estudos e trabalhos, realizações, alegrias e lutas árduas.
Abraço forte que nos reuniu em afago e orações quando da elevação espiritual de seu amado e nosso pai, hora em que agradeceu a Deus pela felicidade que lhe fora propiciada, rogou luzes para o caminho novo que ele iniciava em busca da Luz Maior, proclamou assim a eternidade do espírito, mas vestiu a armadura de chefe de família e seguiu conosco, renovando o brilho de seu olhar por meio das preces que proferia em segredo falando ao seu eterno Lourenço no silêncio da noite alta.
O olhar generoso, que via nas crianças – todas elas e de qualquer idade – seus alunos desde os de tempos mais antigos na pequena escola Santa Angélica, no Lago do Janauacá, do Grupo Antônio Bittencourt no Alto do Nazaré e depois no Bairro da Glória, aos mais novos que foi buscar às centenas em mutirões de pobreza extrema e quase miséria pelo o Alvorada antigo, da “sapolândia”, para alfabetizar e preparar para a vida; em todas as crianças via a esperança e a luz do amanhã, a elas se dedicava com generosidade maternal e delas recebia cartinhas apaixonados expressando gratidão.
Tudo que fizera com os filhos e os alunos repetiu com os netos que chegaram ao tempo de sua presença terrena, aos quais ensinou, encaminhou e fortaleceu na fé e na retidão do caráter, deixando marcas profundas que reverberam todos os dias e os fazem procurar seguir seus exemplos, traduzindo a sua presença eterna nos corações.
Olhar de paz, que apaziguava as nossas inquietações e dúvidas e apascentava as incertezas que sentíamos. Olhar de minha mãe, Sebastiana, que já não vejo, mas pressinto presente e sei que se encontra encrustado no meu coração.
Olhar profundo e doce o de minha mãe. Olhar de eternidade!


Relatório público
Contrastando com a conduta dos políticos amazonenses em passado recente, uma atitude exemplar foi tomada pouco depois da Revolução de 1930, que pode ter sido um ato de audácia, destemor, para dar exemplo de moralidade ou a tentativa de construir couraça para ficar no governo. Nunca se sabe.
Em Manaus, em 1931, o então jovem interventor federal, Álvaro Botelho Maia, adotou postura que deve surpreender, ainda agora, aos mais incrédulos pesquisadores da história local.
O Estado vinha sendo governado por oligarquias, sucessivamente, durante largo período da Primeira República (1889-1930), algumas das quais foram apeadas do poder e deixaram rastros inimagináveis de corrupção e escândalos familiares. Portanto, era preciso provocar um choque moral na política e demonstrar, de forma ampla à população, que a intervenção civil-militar de outubro que conduzira Getulio Vargas ao Governo Federal chegara para modificar, inteiramente, o modo de governar e de representar a população.
Nesse sentido, nos primeiros dias de julho de 1931, com apenas sete meses à frente da Administração Pública do Amazonas, Álvaro compareceu ao Teatro “Alcazar” e, na ausência de Poder Legislativo devidamente constituído não só fez a leitura de um relatório no qual demonstrou como vinha gerindo a coisa pública, mas também, diante de uma plateia lotada e atenta, comunicou que tomaria um hidroavião, pois estava de viagem marcada para o Rio de Janeiro, a então capital da República, para tratar de assuntos de interesse da Administração. Não só isso, também autorizou os presentes a comporem uma comissão popular para averiguar a legalidade e regularidade dos atos que praticara.
E não venham os olheiros curiosos da história insinuar que se tratava de balela e de medida unicamente politiqueira, ou “conversa prá boi dormir”, porque tal fato pode ser constatado no Diário Oficial do Estado de 9 de julho daquele ano e era contado pelos mais antigos dos quais me aproximei desde cedo para aprender mais e melhor sobre nossa terra.
Em seguida, transmitiu o cargo de interventor ao tenente Emanuel de Morais, em Palácio Rio Negro, recomendando cuidados com os “dinheiros deixados em cofre”, acenando sobre providências que o prefeito Marciano Armond precisaria adotar com certa brevidade, afinal, não se tratava de uma viagem qualquer, visto que este deslocamento duraria de 11 de julho a 15 de agosto do mesmo ano. E o pior é que Álvaro foi exonerado por Vargas, em razão da crise intransponível do afastamento de desembargadores do Tribunal de Justiça, em decorrência do caso “Eneida”.
Na verdade, o que se verifica, rigorosamente, é que a viagem ao Sul foi feita para enfrentar as pressões políticas e maçônicas em razão do ato com o qual procurou atender às manifestações populares contra o defloramento de jovem comerciária por cidadão de origem estrangeira, caso já bastante contado e recontado em outras crônicas aqui publicadas.
O inusitado de seu gesto, sem dúvida, além da apresentação pública de um relatório de gestão, foi a autorização para que parte da população manauense reunida no “Alcazar”, o mesmo que se transformou em cine “Guarany”, compusesse comissão com poderes para investigar os seus atos. Nem isso o salvou das garras dos que vinham acostumados a viver por conta das estruturas carcomidas de poder, muitos originárias do Império e consolidados ao longo dos anos na República que ele pensara estar em franca transformação em 1930. Ledo engano!


Meu tio-avô
De uns tempos para cá tenho andado procurando informações detalhadas sobre meus ancestrais mais próximos, seja da origem portuguesa-baiana de meu pai, seja da origem holandesa-pernambucana de minha mãe. Nesse caminho, árduo caminho a procura de fontes que me auxiliem na pesquisa, visto que os mais antigos que poderiam contribuir nesse intuito já residem em outros planos espirituais, venho conseguindo seguir, razoavelmente, a trilha da família de minha mestra e mãe extremada – a família Santos Pereira – do Pernambuco.
Nesse campo é que se inscreve meu tio-avô, Paulino João de Souza e Mello, irmão de minha avó Maria Cândida Sampaio Pereira, a quem minha mãe chamava de “tio Paulino”, o qual, nascido no Recife e ali formado em Direito como muitos outros brasileiros de várias plagas, veio trabalhar em Manaus, seduzido pela prosperidade do lugar em pleno apogeu da economia gomífera, nos primeiros anos de 1900, logo após a formatura.
Pouco depois de seu desembarque na capital amazonense, ingressou nas carreiras jurídicas do Estado e, após experiências de curta duração no interior do Estado, como em Parintins, e juiz de Direito do 1.º Distrito, foi nomeado procurador-geral do Estado em substituição a José Tavares da Cunha Mello, que faleceu no exercício do cargo. Paulino permaneceu nesta importante função de 15 de fevereiro de 1902 a 8 de novembro de 1903, sendo depois nomeado desembargador do Tribunal de Justiça do Amazonas quando da aposentadoria de Francisco Caetano da Silva Campos, assumindo o cargo em 22 de novembro de 1903.
Seu substituído na procuradoria-geral foi Dr. Benjamin de Souza Rubim, que logo depois também seria elevado a desembargador, em 1.º de dezembro, na vaga de Joaquim Cândido Ferreira Lisboa, por sua vez substituído na procuradoria pelo Dr. Benício Tavares da Cunha Mello.
Reconhecendo seu trabalho profissional, o governador Silvério Nery a ele se referiu com encômios em mensagem ao Poder Legislativo do Estado, afirmando: “antigo magistrado no Estado, o qual por toda a parte onde tem exercido a judicatura se há imposto ao respeito e à estima dos seus jurisdicionados”, conforme consta na mensagem governamental de 10 de julho de 1902. Logo Silvério, que diziam ser difícil de reconhecer méritos e de trato com ostentação sobre os “humanos” e se constituiu em chefe político mais longevo da história política do Amazonas.
Não só como jurista Paulino de Mello granjeou simpatia e respeito no Amazonas. Maestro, pianista, violinista, líder de grande número de pernambucanos residentes em Manaus, dentre centenas deles estavam Arthunio Vieira, Benedicto Sampaio (também meu tio avô), Evaristo Wanderley, Gaspar Guimarães ( de sentenças referenciadas Brasil afora), Araújo Filho (o grande jurista do seu tempo), foi Paulino que ajudou a organizar a comunidade de olindenses e recifenses e foi presidente do Clube Pernambucano que não só congregava os seus coestaduanos, mantinha as tradições da terra e promovia saraus litero-musicais, como os auxiliava quando necessário.
Criou e dirigiu o Conservatório de Música que funcionava no antigo prédio da Rua de José Clemente, ao lado do Teatro Amazonas, no qual anos tarde funcionou o Grupo Escolar “Marechal Hermes” e em cujo local se encontra o edifício da Rádio Rio Mar e com alunos e professores realizava concertos no Teatro sempre com sucesso.
Jurista de escol, musicista e professor, Paulino não mereceu, ainda, nenhuma homenagem prestada pelo Estado cuja prosperidade ajudou a construir.


Escola de artes
Vi, com olhos encantados e coração rejubilado, as portas de um novo templo de ensino para as artes serem abertas ao povo amazonense. Um templo que foi edificado com esmero, elevada qualidade, sofisticação e, mais que tudo, organizado para responder a um ideal de educador que persiste na alma de um ilustre amazonense que o dirige e que tem dado vários exemplos dignificantes. Uma casa de ensino que está valorizada pelo senso de responsabilidade social do conselho diretor da instituição mantenedora.
Ao comparecermos ao evento, atendendo a convite que muito nos horou, Rosa, André Luiz e eu, reencontramos amigos queridos e nos sentimos profundamente felizes em constatar como a determinação dos dirigentes de uma entidade privada, tradicional e bem reconhecida no ensino de língua estrangeira, pode exceder aos seus objetivos iniciais e encontrar caminhos para servir, ainda mais, à comunidade e corresponder aos anseios dos jovens de todas as idades.
É que em poucos dias passados foi aberta oficialmente a Escola de Artes do Instituto Cultural Brasil-Estados Unidos – ICBEU, na Av. de Joaquim Nabuco, reunindo professores, mestres e especialistas de nível internacional para ministrarem aulas de dança, música em vários instrumentos, pintura e canto, visando atender três mil alunos, portanto, aqueles que desejam realizar sonhos e abrir caminhos para um futuro profissional e artístico de nível.
Não foi o lançamento de pedra fundamental, nem o anúncio de que em breve teríamos uma escola de artes, ou a apresentação de um projeto, ou de um plano de longo prazo, mas a abertura efetiva de salas de aula já em pleno funcionamento, atendendo 200 alunos, os quais, desde esses primeiros momentos demonstraram aptidão como iniciantes assim como os mestres expressaram a qualificação que possuem.
Não se tratou de prometer fazer, de anunciar o desejo ou de pedir apoio para promover ou organizar a escola. Foi a apresentação do que já está pronto, em funcionamento, com alunos circulando pelos corredores e utilizando as salas sofisticadas com proteção acústica, recursos tecnológicos os mais modernos, instrumentos de primeira linha para o ensino regular e diário em três turnos.
Teatro lotado de artistas, educadores, ex-alunos da instituição, diretores, conselheiros, empresários, políticos e amigos e amigas da Casa que, inaugurada pelo meu saudoso professor Ruy Alencar, há muitos anos, tem hoje em sua direção um educador que teima em se manter fiel aos seus sonhos e em contribuir para a transformação do Amazonas – Fabian Barbosa –, e que tem merecido a confiança dos conselheiros da instituição liderados por Osório Fonseca, cuja trajetória de bons serviços a nossa terra é por demais honrosa, como a de todos que com ele comungam da responsabilidade na direção do ICBEU.
Há requinte, sofisticação, classe, qualidade técnica exposta em todas as salas, sem dúvida, mas, ao mesmo tempo e como não poderia deixar de ser, há uma plêiade de professores a respeito dos quais posso dar testemunho vivo de abnegação, competência e responsabilidade profissional: Atila de Paula, Anadria Rassyne, Giovanny Conte, Thiago Souza, Hanna Vilaça Mirian Abad, Manuel Nogueira, Ananda Guimarães, com o significativo e indispensável suporte de supervisão artística de Baldoino Leite que tem feito de sua vida uma trajetória de glorificação pela arte. Há, também, o toque particular dos geniais Sergio Cardoso e Rui Machado. Conheço a todos, de perto, como diriam os mais antigos – de alma, coração e vida – e sei que são capazes de oferecer técnica, sentimento e amor aos alunos que os terão nas aulas, na formação dos grupos artísticos e na condução de suas esperanças.
Com olhos encantados e coração rejubilado reavivei na retina tempos que em mim não se apagam.

A prisão de Antonio José Moreira
Antonio José Moreira foi preso em 1859, em Manaus, por Ordem 155, de 23 de julho de 1859, emanada do comandante das Armas da Província do Amazonas, publicada no jornal Estrela do Amazonas, de 27, porque, segundo o despacho daquela autoridade militar, seria notório que o dr Moreira ferira as leis e os regulamentos militares por ofensa ao comandante em locais públicos.
Em 10 de agosto do mesmo ano, no mesmo jornal, pode-se ver uma carta do acusado, promovendo a sua defesa pública, quando afirmou:
“O açodamento em matéria tão melindrosa……..
Ele respondeu a Conselho de Guerra realizado na capital da província amazonense, que foi presidido pelo dr Jose Coelho de Miranda Leão, tendo Gustavo Adolpho Ramos Ferreira como Auditor de Guerra interino, José Francisco de Oliveira Mesquita, capitão Honoriano Alexandrino Soeiro, capitão Paes Barreto e o dr Mendes de Amorim, todos na condição de vogais. O conselho funcionou no quartel do Comando de Armas em outubro de 1859, ao tempo em que o ajudante de ordens era Felipe Victor de Araújo.
Os procedimentos não foram tranqüilos, no referido processo. A designação do capitão Honoriano, em substituição ao capitão Cota, que era o titular do conselho e se encontrava adoentado, provocou impugnação apresentada por Ramos Ferreira porque aquele militar havia integrado o Conselho de Investigação do mesmo caso e, na ocasião, votara a favor do réu, na fase de instrução.
Diante do impasse, e possivelmente pelas graves dificuldades políticas que o caso encerrava, aproveitando-se da impugnação o presidente do Conselho encerrou a sessão do dia 20 de outubro, sem lavratura de Ata.
Ele era vacinador oficial da província e foi substituído, temporariamente, pelo farmacêutico José Miguel de Lemos., em 1859.

Um caso sério…seríssimo
Dentre muitos episódios políticos e jurídicos que tenho conhecido ao pesquisar temas que interessem à história do Amazonas, e o faço em fontes primárias, um caso, em especial, chamou minha atenção. Trata-se de um contrato firmado em 1899 para exploração de linha de navegação a vapor, providência que, sem dúvida, parece ter sido da maior importância na ocasião, mas, como se vai ver, ao final se transformou em grave problema e alto custo para o erário.
O contrato foi firmado em 11 de agosto de 1899, mediante autorização da lei n. 242, de 13 de outubro de 1898, para o estabelecimento de “uma linha rápida de navegação a vapor entre os portos de Manaus e Rio de Janeiro, com escalas” e que, após um ano, seria estendida a outros pontos dos rios navegáveis do Estado e da Europa, ficando marcada a data de 18 de julho de 1900 para início do serviço, o que não aconteceu. Logo depois, o contrato foi declarado nulo, em 9 de agosto de 1900, após a posse de Silvério Nery no governo do Estado, possivelmente para não pagar as parcelas mensais de auxílio ao serviço, como era comum naqueles anos ou por aregnga política, o que é mais provável.
A disputa foi para a justiça estadual, depois para a justiça federal e, passando por todas as instâncias, chegou ao Supremo Tribunal Federal com sentenças, embargos e outros recursos que prolongavam o martírio do empresário e ampliavam a dívida do Estado de forma assustadora. Reclamando sem cessar e se valendo de todos os recursos possíveis, mas sem conseguir solução, a empresa contratada resolveu propor um acordo ao poder estadual, tendo como certo o fato de que, conforme os conceitos jurídicos da época, o Estado não poderia declarar nulo o ato que praticara com terceiros, da maneira como foi feito por Silvério.
O Supremo Tribunal Federal, por duas vezes, reconheceu o direito da empresa e o Estado acabou fazendo um acordo de milhões, com o fim de indenizá-la em razão de rescisão arbitrária do contrato. O Estado devia pouco mais de 6.000:000$000, ou seja, seis mil contos de reis “por um serviço que não foi executado”, e a rescisão teria decorrido, segundo o procurador estadual, “devido à precipitação verdadeiramente criminosa com que foi lavrado o decreto que declarou a nulidade do contrato de 1899”. Ou seja, o contrato seria lesivo ao Estado, mas a sua declaração de nulidade implicou em dívida do Estado para com a empresa que havia sido contratada. E isso não foi caso único, houve outros contratos que tiveram o mesmo destino.
A síntese do caso está na palavra do governador Antônio Bittencourt, anos depois, em 1911, ao fazer o acordo, quando deixou declarado que “desconhecedores das normas jurídicas, enganados com o prestígio do Poder Público e sem terem querido dar-se ao trabalho de consultar um profissional, certos governadores andaram praticando atos que, embora bem-intencionados, acarretaram pesadíssimas consequências para a Fazenda Pública, que afinal acabou respondendo por ele”.
Feito o acordo, foi fixado o pagamento de 2.500 contos de reis pelo Estado, em lugar de mais de 6.000 contos, e em prestações, mediante aprovação do Poder Legislativo estadual, com desistência do recebimento dos demais valores por parte do autor da ação.
Eis o que uma briga política pode causar de dano ao erário. Isso porque, à distância dos anos, sabendo da rixa entre os caciques da época na disputa pela chave do cofre da fazenda estadual, vê-se o que propiciou a Antônio Lucullo de Souza e Silva, um bom resultado financeiro, ainda que após uma luta longa,
dispendiosa e sofrida.
Um caso sério…seríssimo.

Presente de aniversário

Andei catando informações esparsas em jornais editados e que circulavam em Manaus em pleno período da “belle époque” (1880-1913), a respeito dos presentes que, costumeiramente, eram oferecidos em datas de aniversário ou festejos especiais de casamento, estes que se realizavam no civil e no religioso, de forma separada, sendo que pela manhã o consórcio se dava em uma das salas do térreo do prédio do Tribunal de Justiça, na Avenida de Eduardo Ribeiro e, pela tarde, na igreja de Nossa Senhora da Conceição, sempre com todas as pompas.
Outros eram levados a efeito nas casas de residência dos pais da noiva, dependendo do grupo seleto que iria ser reunido para as comemorações e, neste caso, apenas o casamento civil, na presença do juiz encarregado do feito.
Dentre as muitas referências que anotei, escolhi, desta feita, a indicação daquelas “pequenas lembranças” que foram oferecidas ao Capitão Ernesto Carlos Cézar, homem elegante e de influência social, quando de seu natalício, as quais servem para dar uma ideia ao nosso leitor de como era requintada a parte mais abastada da sociedade da época, como esbanjava o dinheiro oriundo da exportação da borracha e qual era a maneira como viviam os mais ricos e quais os gostos mais sofisticados.
Ernesto era militar do Exército Brasileiro, que chegou ao posto de tenente em 1898, serviu em Manaus, foi vice-presidente da Liga da Defesa Nacional, em Fortaleza (1922), como coronel comandou a 8ª. Brigada de Infantaria Motorizada e, anos mais tarde, se notabilizou na Campanha do Brasil na Itália, em plena Segunda Grande Guerra Mundial.
As notícias de jornal costumavam ser detalhadas a respeito desses assuntos natalícios, seja por ostentação dos que presenteavam ou por requinte dos presenteados, seja por falta de matéria mais interessante, não sendo possível saber ao certo por qual razão gostavam de descrever as festas, os presentes e os banquetes que ocupavam o cotidiano da sociedade da época em que capitão Ernesto serviu em Manaus, mas quase sempre omitiam o nome das mulheres presentes, preferindo referir “senhora (do) fulano de tal” .
E foi em uma destas festas natalícias que Ernesto recebeu, dentre outras, as seguintes lembranças dignas de nota: um cartão de prata, com monograma e inscrições em ouro, colocado em estojo de seda; uma pulseira em ouro, com esmeraldas e brilhantes; um anel com safira e brilhantes; uma carteira de bolso com incrustações em ouro; uma caneta de ouro, disposta em estojo de pelúcia; um centro de mesa de cristal preto.
Isto, para um jovem oficial em início de carreira no Exército, imagine o leitor como deveriam proceder quando o aniversariante fosse um deputado, senador, governador, um chefe de partido político os quais eram e sempre são rodeados de “mimos” os mais caros, como ainda deve acontecer, pena que a imprensa não mais se interesse por esses “primorosos” detalhes, talvez porque tenha saído de moda anunciar coisas dessa natureza.
Nos últimos tempos e só por interesse menor da politicalha, o que se viu foram notícias a respeito de tucumã e dominó sendo levados para a agradar ao cacique.


Cinema particular
Não é a nova a realização de sessão de cinema particular, ou seja, praticamente exclusiva e assistida por poucas pessoas, evento que na atualidade se dá quando escolhemos uma das plataformas comerciais disponíveis para televisão, selecionamos o filme ou o seriado e nos refastelamos na poltrona de casa para assistir prazerosamente a uma película, agora em meio digital e cada vez mais moderno.
Não faz muito, em alguns poucos lugares de Manaus também era possível que um grupo seleto de convidados se desse ao luxo e ao requinte de assistir sessão de cinema em lugar super reservado, algumas vezes regada ao bom debate sob o desempenho dos artistas, do diretor, do fotógrafo, enfim, dos profissionais que teriam atuado na criação da obra de arte cinematográfica, ensaiando estudos críticos sobre a matéria.
Esse modo muito particular, em tempos não tão distantes, sucedeu muito especialmente no último andar do Edifício Palácio Rodoviário, atual sede da Faculdade de Medicina da Universidade do Estado do Amazonas, na Cachoeirinha, o qual havia sido transformado em residência oficial do governador do Estado, notadamente quando ali residia o professor Arthur Cézar Ferreira Reis e sua esposa Graziela Reis, os quais faziam questão de estar acompanhados dos clubistas e cinéfilos da época, ou de Luiz Maximino de Miranda Corrêa, conforme me confidenciou o mestre em uma das muitas conversas que travamos quando o visitava em seu apartamento em Botafogo ou no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.
Uma sessão especial, entretanto, chamou a minha atenção e aguçou a curiosidade de pesquisador, precisamente a que foi realizada em Palácio Rio Negro, então sede do governo do Estado, pelos idos de 1923, noticiada pela imprensa manauense e objeto de gozação política nas páginas do “Jornal do Brasil”, do Rio de Janeiro, em maio de 1923.
O poder estadual estava nas mãos da família Rego Monteiro, liderada pelo patriarca César Augusto do Rego Monteiro que, naquela data, fazia aniversário. E ao que me acostumei ao longo do exercício de atividades públicas, bem sei que festa de aniversário de governador é recheada de apaniguados do poder, aplausos e puxa-saquismo daqueles que não é qualquer cristão que aguenta. Há sempre quem procure incensar o “chefe” a mais não puder.
Foi o caso. Naquela noite, na varanda do Palácio, estavam reunidos: Rego, governador; Turiano Meira, presidente da Assembleia e genro de Rego; Alcides Bahia, vice-presidente da Assembleia e tratado como filho adotivo de Rego; Claudio Monteiro (filho de Rego e secretário do Governo), Mário Monteiro ( filho de Rego e chefe de Polícia), Edgard Monteiro (filho de Rego e prefeito de Manaus), e o filme projetado com as naturais deficiências tecnológicas da época foi todo ele dedicado a mostrar a “corte palaciana” aqui descrita, naturalmente com as chamadas “caras e bocas”, poses de impressão de eternidade, em eventos oficiais e horas estafantes de trabalho para dar conta dos encargos da Administração estadual.
Foi o que a imprensa denominou de “sessão de cinema em família…”, cujas relações, comportamentos pessoais e atitudes políticas carecem de estudo mais profundo, como tenho dito em outros artigos em que me reporto a esse período de governo estadual.
De todo modo, com essa relembrança, julgo estar atendendo, também, à curiosidade dos leitores que me acompanham semanalmente.